Por Claudio Tafla, Diretor Médico da Nilo Saúde, e professor na Faculdade São Camilo e na FGV – Fundação Getúlio Vargas. É também presidente da ASAP – Aliança Para a Saúde Populacional.
Todos nós estamos diretamente impactados pela pandemia e seus efeitos na saúde mundial, mas qual a relação dela com o mundo corporativo e com os conceitos de Gestão de Saúde Populacional? Quais os aprendizados mais importante para lidarmos com futuras epidemias? O Ministério da Saúde considera oficialmente a Covid-19 como uma doença ocupacional desde setembro de 2020, uma vez que o funcionário infectado pelo coronavírus esteja afastado do trabalho por mais de 15 dias. Com o avanço da vacinação em massa e o surgimento de variantes menos letais e agressivas – porém ainda mais contagiosas – o período de isolamento previsto nos atestados médicos varia entre 7 e 14 dias. Independente do prazo, que afeta a funcionários de empresas que adotam os modelos presencial, híbrido ou remoto de trabalho, existem lições para lidar com a cascata de afastamentos médicos e a queda da produtividade.
Não é difícil entender como chegamos até aqui, mas temos exemplos. Vamos supor que um colega de setor esteja com Covid-19, justo na semana em que você sairia de férias. Aí vem o primeiro problema: a empresa está com muitos funcionários afastados de uma vez só e é preciso evitar as liberações para reorganizar a operação. Quem puder adiar suas férias ou retornar mais rapidamente ao trabalho, ótimo. Se não, será preciso promover um sorteio ou um rodízio de folgas.
Em um segundo exemplo, vamos imaginar que toda a equipe de vendas da empresa esteja com esquema vacinal completo, testes negativos para o coronavírus em mãos e de malas prontas para um evento em outra cidade. Contudo, recebemos um comunicado da companhia de turismo dizendo que o transporte foi cancelado devido ao alto número de colaboradores infectados, sem substitutos disponíveis também por conta da cascata de licenças médicas.
Critérios científicos e margem de erro
E assim, nessa realidade cada vez mais próxima do realismo fantástico, supermercados, times de futebol e até equipes de saúde dos hospitais e laboratórios passam a sofrer com uma massa de profissionais afastados. As necessidades de nossa vida e do mundo do trabalho nos impelem a tomar medidas práticas, que muitas vezes escapam aos critérios científicos. Erramos muito, desde o início da pandemia. Isso só aconteceu não termos usado critérios científicos com a devida margem de erro. Hoje, continuamos vivendo mais confiantes na margem de erro do que na ciência. Mas o que fazer para gerir a situação? Como a gestão da saúde populacional e a ciência de dados podem ajudar?
Lições básicas da gestão de saúde populacional – e de dados – para a saúde ocupacional e controle de epidemias
Usar a ciência e os dados a nosso favor, adaptando os dados e torturando os números, prazos, margens é fundamental para que nos entreguem o que desejamos de resultado. Entretanto, tudo isso nos fará conviver com um limiar de incertezas até sairmos desta situação. É justamente isso que nos traz de volta à Gestão de Saúde Populacional, pois nela fazemos esse exercício o tempo todo. Temos o estudo das probabilidades de desenvolver doenças, consideramos a genética, hábitos e estilo de vida. Sem essa gestão colocada em prática, apenas esperamos que a “loteria” da vida seja favorável. Ou seja, deixamos de fazer o que sabemos que precisa ser feito.
Ao negarmos nosso papel de protagonismo, continuaremos vivendo situações de risco e sendo coadjuvantes de nossa saúde. Na prática, entregaremos a nossa saúde à mercê da sorte e do acaso. Será que regras de home office mais claras e restritas, associadas a uma testagem preventiva, isolamento mais correto e senso de comunidade não seriam mais eficientes?
Temos práticas já validadas em empresas e países que trouxeram mais assertividade, controle e programação. Eles usaram protocolos como máscaras, alcool em gel 70%, evitar locais fechados e aglomerações, uso de tapetes com desinfecção na entrada de empresas, lojas e locais coletivos, e testagem massiva da população com afastamentos em caso de suspeita. Ações simples que já se mostraram valiosas, sempre contando com orientações claras à comunidade.
A contribuição das soluções de saúde digital para a gestão de saúde populacional
Desse modo, boas soluções de saúde digital têm um papel diferencial na coleta, armazenamento, integração, visualização, análise e gestão de dados. Afinal, elas facilitam o trabalho das equipes de saúde ocupacional. Softwares que permitem a gestão, relacionamento e engajamento de pacientes ajudam a garantir uma gestão de saúde populacional muito mais eficiente. Esses sistemas otimizam recursos financeiros, trazendo impactos positivos para a qualidade de vida dos colaboradores. Afinal, saúde e ciência andam andam de mãos dadas e se baseiam em dados concretos e informações precisas.
Por fim, o atendimento virtual dentro do conceito de telessaúde é também crucial no acompanhamento de colaboradores afastados, inclusive por doenças infectocontagiosas como a Covid-19. Além disso, eles permitem a gestão de saúde ocupacional daqueles que trabalham remotamente ou em diferentes unidades físicas da empresa, independente da localização geográfica. Quando concatenados, esses pontos fazem uma grande diferença e não podem ser ignorados. Isso se quisermos, de fato, aprender e evoluir, usando a gestão da saúde populacional e a tecnologia a nosso favor.
O assunto é vasto e a conversa está boa, mas preciso parar por aqui. É que o colega que iria me substituir no plantão ligou dizendo que não virá: seu exame deu positivo para Covid-19.
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